segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A Rota do Sol

 "Como será a Rota do Sol?", ter-se-á perguntado a Deusa. Sim, terá ficado curiosa e aceite um desafio impossível logo á partida! Iniciou a sua Rota do Sol, caminho nunca antes desbravado, como se estivesse á sua espera.
Um Deusa a que muitos já oraram, muitos outros negaram e outros tantos cobiçaram. Mas, ela (acima de mortal e abaixo de demónio) dona de sua magia, confiante e segura tomou o cálice em suas mãos e brindou... Aceitou e entregou.
Seu discipulo despojou-se dos materiais supérfulos a que tanto apreço tinha, mas que o prendiam áquela terra e fez-se ao Caminho com ela! Juntos seguiram a Rota. Guardou alguns, poucos, escondidos na algibeira com medo de se sentir perdido, nú ou por apego... não sabe, mas deixou caí-los algures na Rota.


E a Deusa irada, vendo a sua magia posta em causa, fugiu.

Nesse mesmo Caminho, nessa mesma Rota onde a Deusa brindou com ele, e onde ambos como que lendo os pensamentos um do outro ela lhe deu o seu cálice a beber e ele ao mesmo tempo lhe chegou o cálice dela, como que numa sincronicidade telepática... Onde ele jurou despojar-se de tudo para ver a magia da Deusa... Onde ele, ao som dos sábios conselhos da Annie (outra deusa também ela pouca acessível, mas não menos sábia), jurou seguir a Rota o mais longe possível e quem sabe até ao fim...

...

Ainda hoje se mantêm na Rota e mesmo andando em vidro partido, que dói e fere e magoa... Ainda hoje voltaram ao início da Rota, ambos curiosos, ambos maravilhados e ambos doridos, extropiados até aos ossos... Um Caminho tortuoso, sem  bons samaritanos a apoiar... a ver onde a Rota vai dar...
"Como será a Rota do Sol?", pergunta-se a Deusa.

3 comentários:

  1. A Rota do Sol....
    A rota desse sol que te ilumina e queima por dentro é árdua e dolorosa, por vezes dá vontade de mandar tudo para o ar, "tirar la toalla" e mudar de caminho. É um lugar solitário, com muitas pedras no caminho. Ao contrário do que se possa pensar, o Sol lá já não brilha, deixou o lugar à lua e foi descansar para parte incerta. A noite neste sitio, sendo continua, é cheia de ruídos assustadores, de sombras tenebrosas, de cheiros que não se conseguem identificar.. Talvez essa deusa de quem falas seja mais humana do que o que possa parecer. Leva nela as dores de caminhos difíceis, tem nos pés espinhos que machucam e no coração um grande e doloroso vazio, o qual a rota do sol, imprecisa e vaga como ela é, não consegue preencher. O discípulo anda perdido, daí a deusa não ser mais do que carne humana para moer. A deusa desacreditada do seu caminho já não pergunta como será a rota do sol; já lhe provou o sabor e este é acre. Ela não quer acidez, mas sim doçura. Quer embebedar-se e perder a lucidez que tanto lhe magoa com sabores adocicados, que já não são os da Rota do Sol... A Deusa, não sendo nenhuma entidade divina sabe o que vai no coração do seu não discípulo, sabe que ele gosta de vaguear por outros caminhos, ela não gosta, não tolera, para ela isso é traição e por isso mesmo imperdoável. A deusa fecha os seus olhos redondos, grandes, castanhos, penetrantes e hipnotizantes e faz de conta que não vê, mas o caminho torna-se ainda mais duro de fazer, o que era floresta e bosque encantado virou mato fechado, cheio de silvas e bichos estranhos que mordem e picam e fazem, no corpo dessa deusa, marcas irreparáveis, cicatrizes que ficarão para todo o sempre, continue ela ou não, no Caminho.... E continua a idealizar um caminho menos encoberto, com mais luz e com a real e verdadeira, autentica, presença do "discípulo". Pensa para consigo própria que, não se vendo como deusa, o discípulo não pode ser visto como discípulo, logo, não o pode chamar de herege, embora o seja. Ela sabe que a videira de onde vieram as uvas que fizeram a primeira garrafa já não são as mesmas das da segunda e por aí fora, sabe que a qualidade das uvas tem decrescido, diminuído... Já não lhe apetece vinho, mas sim champanhe. O vinho é bom, mas não excelente. E ela agora só deseja o excelente. Enganou-se, porque viu no bom o excelente e não se perdoa tal falha. Como põde ela ter-se enganado assim? Como pode ela permitir que lhe vendessem gato por lebre? Não! Dentro dela nasce a vontade e a força de uma super mulher e pensa "ou transformo este vinho de média qualidade num vinho excelente ou deito tudo fora!" E talvez seja por isso que ela ainda continua no caminho, mais só que acompanhada, na realidade. Ela já sabe o que há-de fazer, só ainda não teve a coragem.... Que raio de deusa tão medrosa!.... Que discípulo tão herege!...

    ResponderEliminar