terça-feira, 10 de abril de 2012

In Suficiente

É como uma pedra no sapato ou pior: como um espinho cravado na pata. A cada passo não te sai do pensamento aquela dor...Nunca és suficiente. Nunca és de sobra ou transbordas o cálice. Nunca és suficiente. Mesmo quando estás meio cheio, olha-te como meio vazio.Nunca estás no ponto ou se já estiveste já fui noutra vida ou noutro lugar que não esta ou este, mas nunca estás...E eu observo e verifico e re-verifico e pareço-me lá (ou cá)! Mas quando me estabilizo, (isso leva tempo) e não sou tão liquido como a água que se estabiliza facilmente no recipiente onde se encontra, sou mais uma especie de água barrenta ou pastosa e recebo a minha própria noção de equilibrio - Pumba!...Não sou suficiente - não sou inteiro (não sou metade, mas sou um pouco mais que isso) - não tenho a altura certa para chegar aí... Mas, olha, nem sempre quero fazer parte desse altar. Nem sempre quero ser aquilo que queres que eu seja. Sou assim. Sou orgulhosamente insuficiente!  

domingo, 4 de setembro de 2011

Meu Anjo

Meu anjo tem asas negras e cabelos de nuvens,
Ora de sol radiante e calorosa, ora de chuva e tempestade fria.
Meu anjo sorri como um bébé e explode como um
Trovão no mais curto espaço de tempo.
Meu anjo põe o dedo nas feridas
Carrega e faz doer até sangrar.
Meu anjo chupa-me o sangue salgado
E o transforma em doce veneno
E sorri de delicia e carícia saciada,
Beija-me louca e rasga-me a roupa
E me acolhe no caos silencioso da madrugada.
Meu anjo já voou no inferno e no céu
E nenhum deles escolheu como casa.
Meu anjo deixa-me respirar um pouco
Enquanto me dilacera do corpo até alma.
Enquanto me cobre com sua asa
Meu anjo de asas negras
Dá-me de beber de sua boca
Conta-me e ordena-me os pensamentos
Afoga-me no abismo e trás-me á tona
Grita-me no seu silêncio e só com o olhar
Comunica no meu idioma...
Meu anjo deixa-se entrar por mim e
Entra em mim, mesmo sem corpo
Obriga-me e abriga-me
Em prosa, música e verso
Dá-me dor e amor e sorri
Meu anjo é doce e terno
E é um demónio de cura e loucura
È alma morada do Universo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Cicatrizes

"Quando decidimos agir, é natural que surjam conflitos inesperados.
     É natural que surjam feridas no decorrer destes conflitos.
     As feridas passam: permanecem as cicatrizes, e isto é uma benção. Estas cicatrizes ficam conosco o resto da vida, e vão nos ajudar muito. Se em algum momento - por comodismo ou qualquer outra razão - a vontade de voltar ao passado for grande, basta olhar para elas.
     As cicatrizes vão nos mostrar a marca das algemas, vão nos lembrar os horrores da prisão - e continuaremos caminhando para frente."

P. Coelho in Maktub

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Feiticeira



De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada

De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado


De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido


De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida.
   L. Represas




 Um Hino ao eterno feminino, para mim a "Woman" do John Lennon em versão portuguesa. A todas as mulheres de concreta ou abstractamente me fizeram feliz, ás minhas "professoras" do Caminho, pelas lições e, no presente, á Deusa, companheira e confidente que me encontrou algures na Rota meio perdido a vadiar...

http://youtu.be/bznOHTP0vNk

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A Rota do Sol

 "Como será a Rota do Sol?", ter-se-á perguntado a Deusa. Sim, terá ficado curiosa e aceite um desafio impossível logo á partida! Iniciou a sua Rota do Sol, caminho nunca antes desbravado, como se estivesse á sua espera.
Um Deusa a que muitos já oraram, muitos outros negaram e outros tantos cobiçaram. Mas, ela (acima de mortal e abaixo de demónio) dona de sua magia, confiante e segura tomou o cálice em suas mãos e brindou... Aceitou e entregou.
Seu discipulo despojou-se dos materiais supérfulos a que tanto apreço tinha, mas que o prendiam áquela terra e fez-se ao Caminho com ela! Juntos seguiram a Rota. Guardou alguns, poucos, escondidos na algibeira com medo de se sentir perdido, nú ou por apego... não sabe, mas deixou caí-los algures na Rota.


E a Deusa irada, vendo a sua magia posta em causa, fugiu.

Nesse mesmo Caminho, nessa mesma Rota onde a Deusa brindou com ele, e onde ambos como que lendo os pensamentos um do outro ela lhe deu o seu cálice a beber e ele ao mesmo tempo lhe chegou o cálice dela, como que numa sincronicidade telepática... Onde ele jurou despojar-se de tudo para ver a magia da Deusa... Onde ele, ao som dos sábios conselhos da Annie (outra deusa também ela pouca acessível, mas não menos sábia), jurou seguir a Rota o mais longe possível e quem sabe até ao fim...

...

Ainda hoje se mantêm na Rota e mesmo andando em vidro partido, que dói e fere e magoa... Ainda hoje voltaram ao início da Rota, ambos curiosos, ambos maravilhados e ambos doridos, extropiados até aos ossos... Um Caminho tortuoso, sem  bons samaritanos a apoiar... a ver onde a Rota vai dar...
"Como será a Rota do Sol?", pergunta-se a Deusa.

Linha Contínua

 Porquê este desânimo, este abandono de mim próprio enquanto o relógio continua a marcar o seu passo, o seu tempo contínuamente e o motor ronca e acelera? Terei desistido de mim próprio, ou a minha força só aparece em momentos de fúria e inconformidade e penso que ela é real, constante e contínua?
Nalguns momentos de clareza, consigo ver o Todo e a linha (in)visível que nos une a todos nós sencientes, mas é tão raro e lamentavelmente diminuído o tempo de clareza desta grande contínua continuidade...
 Se ao menos um murro no focinho me fizesse sair desta solitude e quietude, me fizesse voltar para fora, para o externo, para a rua, para a auto-estrada e rever-me lá, mas está provado que não. Mesmo sendo o parente mais afastado de mim, mesmo o tempo não parando de marcar o seu passo ao seu ritmo, mesmo sabendo-me crente de todos os foguetes que estoiram e ecoam dentro de mim... há esta parede invisivel, ténue, densa e já habitual que me separa de todos os outros e dos que até vivem e conduzem no meu interior...
 Nestas linhas que se atropelam umas ás outras com urgência e sofreguidão, as palavras descontínuas e as contínuas e as sem tino nenhum deixam transparecer, mais uma vez, o abandono dos meus parentes afastados...